Gastos militares
Recentemente vimos um relatório de uma entidade da Suécia chamada SIPRI (Stochholm International Peace Research Institute), que mostra alguns números significativos para entender o que acontece no mundo. Chama a atenção o valor de aproximadamente US$1600 bilhões em gastos militares pelo mundo todo durante 2010, com cerca de US$800 bilhões somente pelo governo norte americano. O país que vem logo atrás é a China, com cerca de US$ 120 bilhões, seguida da Inglaterra com US$ 60 bilhões e assim por diante. O Brasil aparece em 11º. lugar do mundo, com um orçamento militar da ordem de US$ 30 bilhões, o qual vem subindo em função da preocupação em defender a Amazônia e as reservas de pré-sal. Para termos uma ideia, este número global representa um crescimento em gastos militares de 50% em relação a 2001, ou seja, o mundo dobrou suas despesas militares nos últimos 10 anos. Ao mesmo tempo, o órgão norte americano chamado Friends Committee on National Legislation, divulgou recentemente qual é a alocação de recursos provenientes de impostos arrecadados nos Estados Unidos, e mostra que os gastos militares consomem 40% dos impostos arrecadados, enquanto a Saúde consome 20% e a soma de Energia, Ciência e Meio Ambiente só tem uns míseros 3%. Estes números mostram claramente a via errada pela qual o mundo continua a caminhar e uma política de destruição da vida e do planeta. Se este dinheiro fosse alocado em projetos voltados à erradicação da fome, da falta de saúde, da melhoria de toda infraestrutura, de energias alternativas não poluentes, enfim, de projetos voltados ao benefício do ser humano, o mundo certamente tomaria outro rumo. A verdade é que não falta dinheiro no mundo para uso em projetos militares e ele tem aumentado. Já para outros projetos, o dinheiro é sempre escasso e as crises econômicas aparecem todos os dias em algum lugar do mundo. Existem muitas pessoas e instituições sérias que não concordam com este modelo e fazem o possível para mudar o rumo, quer seja protestando de todas as formas ou simplesmente divulgando e mostrando para mais pessoas o absurdo da situação. Infelizmente este é o modelo atual imposto pelas atuais lideranças das grandes potências e a nossa esperança é que mude enquanto temos tempo. O problema é que o tempo está acabando.
Crônica 93 – Gastos militares
Crônica 92 – O jogo dos ministros
O jogo dos ministros
Parece brincadeira, mas é a realidade. Mais um ministro acusado de corrupção pode ser o próximo a sair do governo Dilma. Desde junho de 2011, saíram seis ministros, cinco deles por corrupção. Isto dá uma média de um a cada mês. Vejamos em ordem cronológica: 1) Antônio Palocci – Casa Civil; 2) Alfredo Nascimento – Transportes; 3) Nelson Jobim – Defesa; 4) Wagner Rossi – Agricultura; 5) Pedro Novais – Turismo; 6) Orlando Silva – Esportes. O único que não saiu por corrupção foi Nelson Jobim, mas sim por discordar publicamente do governo e revelar que na última eleição votou em Serra e não na Dilma. Bem, enquanto faço esta crônica, está sendo acusado o Ministro do Trabalho, Carlos Lupi e logo teremos o desfecho. Depois deste, não tenham dúvidas de que teremos outros. Uma análise simplista indica alguns motivos básicos para essa situação, como por exemplo, o excesso de ministros, de ONGs, de gabinetes, de cargos em toda a máquina do governo, de corrupção, de dinheiro (sem dinheiro não existe corrupção), de impostos (sem impostos não teríamos tanto dinheiro para a corrupção), de partidos políticos, de falta de vergonha, de falta de caráter, e assim por diante. Enquanto isto, o Brasil vai seguindo sua caminhada rumo a Copa do Mundo. Vamos com nossos doentes morrendo nas portas dos hospitais, nos buracos das estradas, nas balas perdidas, etc., e vamos trocando ministros a cada mês, da mesma forma que durante uma partida de futebol substituímos os jogadores, sendo logicamente companheiros da mesma equipe. Se compararmos o governo com uma seleção de futebol e os ministros e seus partidos com os jogadores, podemos imaginar uma grande partida de quatro anos de duração, durante a qual, o técnico vai substituindo os jogadores e o jogo vai continuando. O povo, como uma grande torcida, vai comemorando os lances e resultados sem se importar se está tomando chuva nos estádios ou se terá transporte para voltar para casa. Enquanto assiste ao jogo, se delicia com as bolsas que recebe na entrada do estádio e assume que tudo é festa e tem que assistir à grande partida. Existem os torcedores de um lado, de outro, e aqueles que sabem que o jogo é uma grande “marmelada” e que o resultado é manipulado. Mesmo assim, os estádios ficam lotados e todos comemoram felizes as novas contratações a peso de ouro. Conversam sobre milhões que os astros recebem e na vida real só conhecem as migalhas. Mas, apesar disto, é um povo feliz, pois tem um jogo para assistir.
Crônica 91 – Halloween
Halloween
A palavra Halloween tem sua origem na palavra hallowinas, que é o nome das guardiãs femininas do conhecimento, na antiga cultura celta da Escandinávia. Para os celtas do hemisfério norte, o dia 31 de outubro marca o final do ano produtivo e o início do inverno. Neste dia era celebrado o Samhain, em honra ao deus Samhan, que era o Senhor dos Mortos. Os sacerdotes realizavam diversos rituais e acreditavam que os espíritos dos mortos poderiam voltar ao mundo dos vivos, durante a transição do ano velho para o novo. Nesta noite, os aldeões costumavam vestir trajes assustadores e andar por entre as casas fazendo barulho, para afastar os espíritos. Outra tradição era oferecer alimentos e oferendas a estes espíritos para que eles não os importunassem durante o próximo ano. Mais tarde, com o advento do catolicismo, foi criado no século VI, o Dia de Todos os Santos, que era comemorado em 13 de maio. No século seguinte, esta data mudou para 01 de novembro. Mais adiante, no século XI a Igreja iniciou a celebração de um dia para todos os mortos ou Dia de Finados, que ficou sendo 02 de novembro, pois no dia 01 já existia o Dia de Todos os Santos. Voltando ao Haloween, ele foi levado para os Estados Unidos por volta do século XVII, por imigrantes irlandeses, que cultivavam as tradições celtas, mas, devido ao caráter distorcido que a tradição católica pregava na época, ele passou a ser considerado como uma festa pagã, diabólica e maléfica. Era o dia em que as bruxas voavam em suas vassouras, para o local da festa onde o anfitrião era o diabo. Daí foi que este dia passou a ser conhecido como Dia das Bruxas. Dos Estados Unidos, essa data se espalhou pelo Brasil e, hoje em dia, virou uma festa de crianças em escolas e essencialmente comercial, na maioria das vezes, sem conhecer o seu significado. Caso curioso é a tradição de fazer caretas de abóboras com velas. Ela vem de uma antiga lenda irlandesa de Jack, o Lanterna. A lenda conta que Jack fez um pacto com o diabo por duas vezes e nas duas ele enganou o demônio. Quando morreu, ele não foi aceito no céu por ter feito pacto com o diabo e também não foi aceito no inferno, por ter enganado o diabo. Ele foi condenado a vagar eternamente pela escuridão, mas o diabo ficou com pena dele e lhe deu uma lanterna para que pudesse iluminar o seu caminho. Na lenda original essa lanterna era uma vela colocada dentro de um nabo, mas como a abóbora era mais abundante nos Estados Unidos, a lanterna virou uma vela dentro de uma abóbora, na versão americana.
Crônica 90 – ENEM
Enem
O Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), foi criado em 1998 pelo MEC e é considerado o maior exame do Brasil. Logicamente, também é o mais caro. O problema é que desde a sua criação, apresenta problemas de má administração por parte de seus responsáveis, e uma sequencia de erros, que dificilmente seriam admitidos em uma organização privada. Todo ano, durante a realização deste exame, vêm à tona problemas desde vazamento das questões, provas erradas, gabaritos invertidos, acesso precário pela internet por ocasião da inscrição e outros, que fazem com que este instrumento tenha que ser repensado ou pelo menos gerenciado de uma forma mais séria. Aliás, se formos avaliar o MEC como um todo, são vários os tropeços ao longo dos últimos anos, mas não é esta a intenção desta crônica. Voltando ao Enem, depois de muito procurar sobre o quanto custa aos cofres públicos, achamos uma estimativa atual de aproximadamente 300 milhões por exame, sem contar os custos extras de refazer as provas, quando as fraudes ficam evidentes. É muito dinheiro envolvido para fazer um negócio tão precário e no mínimo, indica uma má utilização de verbas. Agora, neste final de outubro de 2011, mais uma vez, surgem denúncias sérias, pois algumas questões da prova estavam sendo discutidas antes do exame, em uma escola de Fortaleza, no Ceará. Novamente, a assessoria do MEC vem a campo, para explicar que existe a possibilidade de que as provas sejam anuladas e que os alunos tenham que repetir o exame. A senadora Marisa Serrano de Mato Grosso do Sul, já tinha afirmado que a presidência tem que olhar a educação com outros olhos, pois nosso ensino não está bem e o governo é displicente em relação ao exame que avalia a sua qualidade. Já a presidenta Dilma diz que a educação está “bem encaminhada”. Se analisarmos a qualidade de nossos alunos atuais e as trapalhadas do Enem como podemos chegar à conclusão de que a nossa educação está bem encaminhada? O Brasil precisa com urgência, colocar a educação em seu devido lugar. A nossa prioridade deveria ser escolas, bom sistema educacional, professores competentes, motivados, bem remunerados e não um órgão criador de confusões e que todo ano se envolve em milionárias polêmicas com o dinheiro público. Aliás, dinheiro este, que falta para tudo, mas sobra para as obras da Copa do Mundo. Volto a citar Rui Barbosa, que disse uma vez que a burrice é uma ciência e nós é que ainda não acordamos para ela. Acorda Brasil!
Crônica 89 – Lixo hospitalar importado
Lixo hospitalar importado
Em julho de 2009 fiz uma crônica sobre o problema do lixo importado da Europa pelo Brasil. Na época, eram 40 contêineres com 740 toneladas de lixo doméstico vindos da Inglaterra que foi retido no porto do Rio Grande, no sul do país. Tinha lixo de todo tipo, como pilhas, banheiros químicos, preservativos, brinquedos quebrados, etc.. Na época, a equipe da alfândega disse inclusive que descobriu a existência de um esquema da máfia italiana que desviava lixo doméstico de países da Europa com documentos falsos e enviava para outros países, como sendo material reciclável, entre eles o Brasil. Parece que após certo tempo, tudo foi esquecido e o nosso país voltou a ter o mesmo problema, desta vez com a importação de lixo hospitalar dos EUA. Muitos já devem ter visto as recentes notícias de que a Agência de Vigilância Sanitária de Pernambuco comprovou através de denúncias anônimas, a existência de material proveniente de descarte de hospitais, que estavam sendo vendidos livremente em lojas e feiras livres de Pernambuco. Está sendo apontada como responsável pela importação, uma empresa chamada Na Intimidade que utiliza o nome fantasia de Império do Forro de Bolso de Santa Cruz do Capibaribe. Esta empresa trabalha com importação de tecidos e o seu responsável, desde 2001, importa perto de US$ 1 milhão por ano em tecidos dos EUA, de acordo com dados do próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. É uma vergonha nacional, para não dizer outra coisa. Por outro lado, os EUA também não exerce nenhum controle sobre o destino de seu lixo hospitalar? Como essa mercadoria saiu de forma irregular do país que mais faz alarde de sua capacidade de fiscalização? Onde estão as autoridades americanas que não viram este crime? A máfia do lixo não tem fronteiras, e, o povo, de qualquer país, é quem sempre paga pela corrupção. Agora, que o assunto foi parar na mídia, começam os incontáveis pedidos de “investigações rigorosas” de ambos os lados, os quais, quase sempre, não dão em nada. Por enquanto, sugiro verificarmos os forros de nossas roupas, para ver se não encontramos algo que indique se tratar de um lixo hospitalar americano. O Brasil está na rota internacional de tráfico de lixo, inclusive hospitalar, como se não bastasse todo o lixo que temos por aqui.
Crônica 88 – FIFA joga nossas leis no lixo
FIFA joga nossas leis no lixo
Existe um provérbio antigo que diz que quanto mais nos abaixamos, mais mostramos “determinadas partes”. Este provérbio se aplica com muita sabedoria ao que estamos vendo acontecer aqui no Brasil com relação à FIFA. O Brasil se abaixa cada vez mais a cada nova exigência da FIFA, e, a cada dia que passa, mais o problema aumenta e salta aos nossos olhos. Infelizmente, aqueles que deveriam acabar com esta situação ridícula, nada fazem e estão coniventes com esta vergonha. A FIFA dita suas leis, como é o caso do projeto de Lei 2.330/11, enviado ao congresso para aprovação, e conhecido como Lei Geral da Copa, acima das leis do nosso país. De que vale uma constituição, se uma simples federação de futebol pode mudá-la a seu bel prazer? De que valem os discursos de nossos governantes, se estão entregando o país a este grupo externo? O Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto do Idoso, o Estatuto do Torcedor e muitas outras conquistas do povo brasileiro estão sendo jogadas no lixo, uma vez que a FIFA está acima de tudo durante este período obscuro em que viverá o Brasil. Até a Polícia Federal terá que passar os poderes de controlar a entrada e saída de nosso país para a soberana FIFA, que passa a fornecer ou vetar as credenciais de entrada e trabalho no país, numa clara afronta à nossa legislação. A venda de bebidas alcoólicas em estádios será permitida durante os jogos e a FIFA controlará todos os pontos de venda. Nunca vimos uma situação de tantos desmandos nas nossas leis como a que estamos assistindo agora. Estou envergonhado e profundamente decepcionado com todos aqueles que estão entregando o Brasil de uma forma tão descarada e despudorada. Como sou um otimista, acredito que ainda possa aparecer um líder de fato, que mande a FIFA se colocar no seu devido lugar ou que vá embora de uma vez com sua Copa e tudo o mais e suma de nosso país. Um povo que, apesar de pagar impostos altíssimos, não tem segurança, educação, estradas, hospitais e outras necessidades básicas, merece um pouco mais do que algumas partidas de futebol. Tenho certeza de que muitos brasileiros, assim como eu, estão revoltados com esta situação.
Crônica 87 – Barcelona
Celebração da vida em Barcelona
No dia 25 de setembro de 2011, Barcelona mostrou ao mundo que o Homem está evoluindo. Atendendo a uma petição com perto de 200 mil assinaturas, o governo da Catalunha, região nordeste da Espanha, decretou o fim das touradas em seu território e no dia 25 de setembro tivemos a última tourada em Barcelona, a segunda maior cidade da Espanha. Após muitos séculos desta barbárie contra os indefesos animais, finalmente a semente de uma nova era germinou e o povo exigiu um basta, apesar de inúmeros protestos dos defensores desta “tradição cultural”. Esta data é para ser comemorada não só em Barcelona, mas em todo mundo. É uma grande vitória da vida e da decência humana, e um embrião de grandes mudanças no mundo. É um sinal de que o Homem está acordando para outra realidade, mais verdadeira e de acordo com as leis naturais. É um sinal de que nem tudo está perdido. Já foi dito que a questão com relação aos animais, não é se pensam ou falam, mas sim que eles sofrem e o ser humano não tem o direito de submeter qualquer animal que seja a um sofrimento para sua diversão. O grande líder pacifista Mahatma Gandhi falou sabiamente que a grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como trata seus animais. Da mesma forma, o sábio Pitágoras, séculos antes de Cristo, profetizou que, enquanto o homem continuar a massacrar os animais, não conhecerá a saúde nem a paz. O mundo está mudando, muitas pessoas estão se ajustando a uma nova realidade, e de Barcelona, uma tradicional terra das touradas, veio esta boa nova, como uma luz no final do túnel, a nos lembrar de que o tempo de escuridão vai passar. Falta muito, o homem ainda trata os animais de uma forma vergonhosa, mas este episódio acende a chama da esperança. Aqui no Brasil, apesar de proibida, ainda temos a famigerada Farra do Boi em várias cidades de Santa Catarina, em especial durante a semana santa. Algumas comunidades realizam a farra para festejar casamentos, aniversários e outras datas consideradas especiais. Muitas vezes os próprios políticos destas comunidades doam os bois para serem torturados até a morte, como parte de uma campanha para angariar votos na próxima eleição. É a celebração da morte não só do boi, mas do próprio homem, que desce mais um degrau a cada festa deste tipo. Vamos mudar este cenário e extirpar esta doença de nosso meio. Parabéns, Barcelona, por esta celebração da vida!
Crônica 86 – A fábula do país do álcool e da gasolina
A fábula do país do álcool e da gasolina
Era uma vez, um país que disse ter conquistado a independência energética com o uso do álcool feito a partir da cana de açúcar. Seu presidente falou ao mundo todo sobre a sua conquista e foi muito aplaudido por todos. Na época, este país lendário começou a exportar álcool até para outros países mais desenvolvidos. Alguns anos se passaram e este mesmo país assombrou novamente o mundo quando anunciou que tinha tanto petróleo que seria um dos maiores produtores do mundo e seu futuro como exportador estava garantido. A cada discurso de seu presidente, os aplausos eram tantos que confundiram a capacidade de pensar de seu povo. O tempo foi passando e o mundo colocou algumas barreiras para evitar que o grande produtor invadisse seu mercado. Ao mesmo tempo adotaram uma política de comprar as usinas do lendário país, para serem os donos do negócio. Em 2011, o fabuloso país grande produtor de combustíveis, apesar dos alardes publicitários e dos discursos inflamados de seus governantes, começou a importar álcool e gasolina. Primeiro começou com o álcool, e já importou mais de 400 milhões de litros e deve trazer de fora neste ano um recorde de 1,5 bilhão de litros, segundo o presidente de sua maior empresa do setor, chamada Petrobrás Biocombustíveis. Como o álcool do exterior é inferior, um órgão chamado ANP (Agência Nacional do Petróleo) mudou a especificação do álcool, aumentando de 0,4% para 1,0% a quantidade da água, para permitir a importação. Ao mesmo tempo, este país exporta o álcool de boa qualidade a um preço mais baixo, para honrar contratos firmados. Como o álcool começou a ser matéria rara, foi mudada a quantidade de álcool adicionada na gasolina, de 25% para 20%, o que fez com que a grande empresa produtora de gasolina deste país precisasse importar gasolina, para não faltar no mercado interno. Da mesma forma, ela exporta gasolina mais barata e compra mais cara, por força de contratos. A fábula conta ainda que grandes empresas estrangeiras, como a BP (British Petroleum), compraram no último ano, várias grandes usinas produtoras de álcool neste país imaginário, como a Companhia Nacional de Álcool e Açúcar, e já são donas de 25% do setor. A verdade é que hoje, este país exótico exporta o álcool e a gasolina a preços baixos, importa a preços altos um produto inferior, e seu povo paga por estes produtos um dos mais altos preços do mundo. Infelizmente esta fábula é real e o país onde estas coisas irreais acontecem chama-se Brasil.
Crônica 85 – A boa e a má morte
Hoje passamos um tempo dentro de uma UTI em um hospital na cidade de São Paulo e observamos uma realidade que nos levou a pensar em situações onde os opostos são bem visíveis. Pessoas animadas que esperam sair em breve e pessoas que vegetam, sem noção do que está por vir. A sensação é estranha e você sente a presença do bem e do mal nestas salas, misturados entre seres humanos, tubos, aparelhos eletrônicos e olhares que saem de algum local obscuro e muito escondido. Bem e mal, esperança e desespero, luz e escuridão, vida e morte, são opostos e um não existe sem o outro. Porém, nessa crônica, não pretendo falar sobre a vida e sim, sobre a morte. Quanto vale uma boa vida? Não tem preço, dirão muitos, sem hesitar. Quanto vale uma boa morte? A resposta demora um pouco mais. Boa morte? Isso existe? Pode a morte ser boa, se nos acaba com a vida? A vida pode ser longa ou curta, mas se vivida com saúde, com bens materiais suficientes para manter a dignidade e, principalmente com amor, então, ela é boa. Mas, e a morte? Como pode ser boa se acaba com algo que pode ter sido bom? Nós nos preocupamos muito com uma boa vida (o que considero correto), mas pensamos pouco sobre uma boa morte e, desta forma, vamos acostumando com a má morte. No passado não muito distante, um atropelamento, um acidente fatal qualquer, ou um crime violento, causava um forte desconforto em que estivesse ao lado. Atualmente, principalmente nas grandes cidades, isso virou estatística e nos acostumamos a conviver com este tipo de morte. Começou a fazer parte do nosso cotidiano e não causa mais nenhuma comoção quando vemos nos jornais ou na televisão, cenas horríveis sobre uma morte violenta.
Alguns anos atrás, em uma via das mais movimentadas de São Paulo, vimos em um local bem ao alto, corpos de bonecos imitando pessoas normais, em tamanho natural, com suas vestes do dia a dia, pendurados em uma forca. Essa mensagem grotesca na verdade foi para nos chamar a uma tomada de posição frente à crescente violência que assola o país, fazendo com que nos acostumemos a todo tipo de morte. As crianças perguntavam se era gente de verdade que estava exposta daquela maneira e queriam saber por que morreram daquela forma. Naquela rua, eram bonecos, mas quem sabe se, em outros locais, seriam pessoas de verdade, enforcadas nas ruas das cidades? Aliás, isso acontece em alguns locais desse mundo, durante diversas guerras. Temos realmente que exigir um basta nessa situação. Basta de violência, basta de nos acostumarmos com a má morte. A boa morte, em um local de paz, com seus entes queridos em volta, desejando uma boa viagem, deve ser tão importante, quanto uma boa vida, ou quem sabe, até mais. Uma má morte, causada por um crime violento ou isolado dentro de uma UTI, não pode fazer bem ao ser humano. Temos que rever conceitos, humanizar o que for possível ao nosso lado e pensarmos um pouco nestas questões.
Crônica 84 – O Brasil está sendo vendido
O Brasil está sendo vendido
Existe um movimento mundial, no qual países com dinheiro e pouca terra cultivável, compram terras em outros países que possuem muita terra e pouco dinheiro. Eles as usam não só para produzir alimentos, como também para cultivar eucaliptos para produção de papel e exportar para seus países de origem. No caso do Brasil, já passa de 6,0 milhões de hectares a área de terra em mãos de estrangeiros. Para termos uma ideia de quanto é isto, basta lembrar que um hectare equivale a 10.000 m², ou seja, um quarteirão de 100 metros de lado por 100 metros de fundo.
Este número pode ser muito maior, pois o próprio presidente do INCRA diz que muitos proprietários não declaram a nacionalidade no registro e o controle no Brasil é falho a tal ponto que mesmo o INCRA não sabe a real extensão das vendas. A maior parte são terras da Amazônia, Mato Grosso e Bahia, mas existem propriedades ao longo de todo no país. Existem até sites estrangeiros especializados na venda de terras no Brasil ressaltando as vantagens em termos de preços e facilidades na exploração de minérios, pecuária ou outra atividade qualquer. O Brasil deve atrair o investidor estrangeiro, mas uma coisa é comprar empresas, abrir novos negócios na indústria e outra é comprar terras. A compra de terras significa diminuir nosso território e a própria perda da soberania nacional. Outro problema são as empresas registradas como brasileiras, mas na verdade controladas por estrangeiros, como é o caso de enormes empresas em Minas Gerais controladas por americanos. A grande verdade é que o Brasil está sendo vendido descaradamente e nossas terras estão sendo usadas por grandes empresas, as quais fazem aqui, o que muitas vezes não lhes é permitido fazer em outras partes do mundo, como é o caso de grandes plantações de eucaliptos para papel. Lembramos que o cultivo de eucaliptos é polêmico e tido como altamente predatório, pois ele consome altas quantidades de água, diminui a água dos riachos, afeta o lençol freático, modifica a condição do solo e reduz a biodiversidade da flora e da fauna da região onde é plantado. Como bem disse o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano: Os bosques nativos abrem espaço para os bosques artificiais. Parecem soldados em fila os pinheiros e eucaliptos de exportação, que marcham rumo ao mercado internacional. Fontes de divisas, exemplos de desenvolvimento, símbolos de progresso, esses criadouros de madeira ressecam a terra e arruínam os solos. Neles, os pássaros não cantam. As pessoas os chamam de bosques do silêncio!